Brinquedos Espalhados

Brinquedos Espalhados

Pular para as fotos
 

A ideia e o desenrolar


BRINQUEDOS ESPALHADOS surgiu dentro da minha própria casa, na adolescência (época que comecei a escrever poesia), como brincadeira, e se espreguiçou por todas as casas que já morei depois que saí da casa dos meus pais (somam mais de 10), e acredito que tenha vindo de uma inquietude dupla: tirar o poema de dentro do livro e tentar transformar, com poesia, os espaços que habito e pelos quais circulo. Sendo assim, um belo dia me dei conta de que não tinha quase nenhum objeto em casa sem uma inscrição, poema ou até mesmo brincadeira, e passei a fazer isso também na casa dos meus amigos, nos locais onde trabalhei e também nas ruas. Renomeava ou dava nomes a todas as coisas ao meu redor, fazia pequenas instalações e deixava pelo caminho para serem transformadas por outras pessoas.

Então, em 2011, resolvi começar a mostrar esses trabalhos, e criei os PAPÉIS PRIVADOS, uma série de poemas escritos em papéis de forrar assento sanitário que transformei em quadros e expus em três lugares, sempre nos banheiros dos estabelecimentos: no Centro Cultural B_arco/Galeria Virigilio, em SP, em ocasião da Balada Literária; na Casa da Lapa, também em SP, e no OI Futuro Ipanema, Rio de Janeiro, em ocasião da primeira edição do projeto Palavras Cruzadas, e que também contava com outros “objetos poéticos”, como penicos e cadeiras. Depois daí, fui fazendo pequenas séries de fotos, outros objetos, desenhos, esculturas e fui largando pelo caminho. Muitas coisas eu ainda tenho, ou tenho o registro delas, outras tantas foram se perdendo por aí. E aos poucos fui percebendo que o material que já vinha acumulando ficava cada vez mais caudaloso.

E aí decidi levar esse material e essa “ideia” pra rua de outras formas e desenvolvi uma oficina de poesia, também intitulada BRINQUEDOS ESPALHADOS, convidando as pessoas a se apropriarem poeticamente de seus espaços e dos espaços públicos, produzindo objetos, e ao final das oficinas deixávamos uma exposição no local, com trabalhos desenvolvidos por mim, pelos alunos e em conjunto. Essa oficina foi ministrada em vários lugares do Brasil, entre eles, na biblioteca pública da FUNCEB, em Salvador, no SESC Tijuca, Rio de Janeiro, no Sesc Palladium, em Belo Horizonte e no Casarão É Logo Ali, do Sesc Ipiranga, em São Paulo.

Em 2014 fui convidada para participar do projeto QUARTO DE POETA, um projeto realizado pelo Sesc Ipiranga, em São Paulo, num casarão centenário alugado por eles para atividades especiais, baseado na obra e pensamento do poeta e filósofo francês Ganston Bachelard e a “poética dos espaços”. Então ocupei um dos quartos do casarão com uma instalação poética chamada PLANTA PEIXE PÁSSARO e transformei o espaço inteiro numa experiência parte interativa – com pequenas instalações pensadas para a ocasião – e parte expositiva, contando com alguns desses objetos que já vinha desenvolvendo. O quarto ficou aberto durante 4 meses.

Eis que por fim, a convite do Oi Futuro Ipanema para o Projeto POESIA VISUAL, de curadoria de Alberto Saraiva, realizei minha primeira exposição individual e, claro, de mesmo nome – BRINQUEDOS ESPALHADOS. Ficou em cartaz de fevereiro a maio de 2016. Ela é não só um apanhado de tudo que já desenvolvi e expus, mas mistura vídeos, áudios de leituras de poemas, quadros, esculturas, fotos, objetos poéticos desenhos, livros artesanais, como também a apresentação de novas séries ainda inéditas, como, por exemplo, a DOMINOMES – palavras extraídas de peças de dominó. E também trabalhos desenvolvidos com outros artistas visuais, sonoros e fotógrafos, parceiros de vida e criação, se é que essas coisas se separam, são eles: Beta Maya, Elisa Mendes, Júlio de Paula, João Gonçalves e Patricia Chmielewski.

Texto de apresentação do curador Alberto Saraiva

Bruna Beber nasceu em Duque de Caxias (RJ), em 1984, e mudou para São Paulo em 2007. É uma jovem e promissora poeta carioca que vem produzindo com bastante vigor. Seus poemas circulam o mundo em diversas antologias. Entre seus livros, destaque para o primeiro deles, “A fila sem fim dos demônios decontentes” (2006), seguido de “balés” (2009) e Rua da Padaria (2013).

Esta é uma poeta para ser lida com calma e concentração, pois seus poemas, de um modo geral, nos apontam coisas como um turbilhão. Aqui, em “Brinquedos Espalhados”, ela revela um projeto antigo que vem sendo construído paulatinamente – aos poucos, mesmo – e que já dura dez anos, uma vida, eu diria. Bruna nunca se contentou em escrever apenas sobre o papel, ao contrário, parecia-lhe que qualquer objeto poderia e deveria ser suporte para a poesia, como se houvesse uma tentativa de mudar o mundo ou mesmo transformá-lo em algo mais próximo de si e, por conseguinte, dos outros: uma cadeira, por exemplo, não deveria servir só para o descanso; ou uma cama, para o repouso; ou uma tábua de cortar carne, para o corte da carne. Não, esses e outros objetos são suporte-fonte do drama poético contemporâneo.

Assim, a poeta escreve, desenha, filma, projeta, usa cores, invade espaços e se desloca através de tudo, (re)significando cada coisa de que se apropria. Seria talvez um modo de dispobilizar o poema no dia a dia, de doá-lo, já oferecendo a possibilidade para que o poema seja realmente parte integral da vida, fora da gaveta, mas usado mesmo, como se usa um regador para molhar a grama e um tesoura para podar a roseira.

Estão aqui, sensível oferta dos Brinquedos Espalhados de Bruna Beber.

 

Alberto Saraiva – Curador (fevereiro de 2006)


As séries


Folguedos (2010 a 2016):

7 objetos com poemas inscritos – um regador, dois penicos, duas tábuas de carne, dois objetos suspensos por prateleiras criadas com tábuas de carne e anexadas à parede; 12 fotos enquadradas em 15×15 cm, sendo 6 de cada lado entre os objetos; duas cadeiras de madeira, uma de costas pra outra, com os inscritos “vidamorte” e “canseio” e ao lado delas um escorredor de pratos com todos os livros da autora dispostos e presos para a leitura.

Papéis privados (2011)

5 poemas escritos em forros de assento sanitário enquadrados em 40×40 cm, são eles: Viva Vulva, Alegriaalergia, Romance em 12 linhas, Tem gente que morre sem ver o próprio cu e Homem na Grécia.

Dominomes (2015)

Palavras extraídas de peças de dominós: 5 boxes de madeira 12×16cm.

O que eu fazia nas aulas de geometria (1995)




Esculturas feitas em giz de quadro negro, esculpidas com a ponta da lapiseira, formando desenhos rupestres. São 10 esculturas em box acrílico 10×10cm.

Altar à mão (2015)

Desenhos feitos à mão, esferográfica sobre papel. Seis desenhos enquadrados em 15×15cm: Bruce Lee, Bob Marley, Lampião, Mario de Andrade e Matamorro, um poema visual.

Cáurdiovasculares (2016)

Cinco totens + fones presos à parede de poemas lidos e gravados pela autora, com paisagem do artista sonoro Júlio de Paula. Abaixo dos totens, compõem a parede sete vasos de plantas com as inscrições do caminho do sistema respiratório: boca, nariz, faringe, laringe, traqueia, brônquios, pulmões.

Videowall e Projeção chão

Videowall com 4 poemas animados em vídeo (parceria com Elisa Mendes); Projeção chão: três livros artesanais projetados do teto ao chão. Entre eles: Rua da padaria em slow motion, Planta Peixe Pássaro (ilustrado por Beta Maya) e Vilipendibook (livro inédito, feito em parceria com o artista plástico João Gonçalves)

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